Antar Mouna e Japa 1/2

Há uma técnica do hatha yoga chamada shankhaprakshalana que elimina as toxinas do estômago e limpa todo o canal digestivo. Essa prática ajuda a curar quase todos os problemas do estômago através da regulação da bilis, gases e mucos. Neste processo, bebem-se cerca de dezasseis copos de água morna salgada, entre os quais são executados cinco asanas diferentes. Isto limpa o estômago completamente; o corpo torna-se muito leve e livre de tensão. De igual modo, há também um shankhaprakshalana mental que faz com que a mente se liberte de pensamentos desnecessários e proporciona equilíbrio mental. A nossa mente está obstipada com concepções erradas, tensões, samskaras antigos e muitos desejos não realizados. Enquanto tivermos inibições e preocupações desnecessárias, a mente não pode relaxar. Quando limpas o corpo físico, tens que beber água salgada e evacuar várias vezes. O que gera cansaço, mas depois vais-te sentir muito melhor. Da mesma forma, no início do shankhaprakshalana mental vais-te cansar por causa da enorme quantidade de pensamentos, mas no final, quando és capaz de esvaziar a mente de pensamentos, podes desfrutar da verdadeira felicidade. Todos nós temos desejos sexuais, samskaras, preocupações e pensamentos supérfluos, sejas homem ou mulher, rei ou servo. Todos têm muitos problemas; nenhuma mente é pura. Pode alguém dizer que não tem toxinas no corpo nem distúrbios na mente? Se alguém disser isto, não está a falar a verdade. Os desejos e os pensamentos são naturais. Um homem sem desejos nem pensamentos não é mentalmente equilibrado. Está definitivamente doente. É possível conhecer os pensamentos da mente consciente. Mas as dimensões da mente subconsciente e inconsciente são tão profundas como o oceano. Podes ver as ondas do mar na superfície, mas não consegues ver os animais, escorpiões, serpentes ou as pérolas preciosas nas dimensões mais profundas. Do mesmo modo, não é possível conhecer as fraquezas ou inibições profundamente enraizadas na mente subconsciente. Não consegues reconhecer os teus samskaras mais íntimos que se têm formado sob influência da família, da sociedade ou da religião, desde tempos imemoriais. Mas tens que tomar consciência deles e começar a observar tudo o que está na mente subconsciente e inconsciente. Se queres paz de espírito, primeiro tens de conhecer a tua mente. Para compreender a mente, tens que praticar antar mouna, silêncio interior. Quando exploras este processo do yoga, os samskaras suprimidos são libertados a partir das dimensões mais profundas da mente. Ao praticar o shankhaprakshalana bebe-se bastante água, da mesma forma, tens que fazer japa durante antar mouna. O mantra flui pela mente e liberta os samskaras e as tensões acumuladas. De acordo com a qualidade dos samskaras, às vezes podem-se observar muitos pensamentos insignificantes, outras vezes ver fantasmas aterrorizantes ou cenas e paisagens muito belas. Quando o aspirante encontra ideias desagradáveis ou figuras assustadoras na sua própria mente, fica nervoso. Isso ocorre porque nunca viu ou experimentou estas coisas durante o curso normal de sua vida. Especialmente quando nos sentamos para meditar, para uma prática de japa ou para uma oração, um novelo de pensamentos começa a desfiar. Porquê? Porque durante a meditação, esqueces o mundo exterior. A consciência é recolhida para o interior, onde te deparas com inúmeros samskaras que assumem várias formas diferentes. Estes são a raiz de doenças físicas e mentais. Quando o aspirante olha para esses pensamentos mesquinhos e incomodativos, fica desesperado e interrompe as suas práticas espirituais, achando que este processo de sadhana não é adequado para ele. Na verdade, não deve parar, porque essa purificação mental é necessária, tem de acontecer. Quando entras numa sala há muito tempo descuidada, descobres que está tudo sujo, o chão e as paredes estão cobertas de pó. Para limpar o quarto tens que remover todas as coisas sujas para fora do quarto. Enquanto varres, a sujidade vem à superfície. Se parares de varrer, o quarto nunca será limpo. Da mesma forma, não podes limpar a mente, sem antes remover a sujidade das preocupações, tensões e inibições pela prática de antar mouna e japa. A prática de antar mouna e japa deve acontecer em simultâneo. Deves testemunhar os pensamentos como um espectador, sem te identificares com eles. No início, não tens que concentrar a tua mente em nenhum ponto. Mas deves ser persistente nas práticas espirituais, tendo por elas o máximo respeito. É facilmente observável que a maioria dos aspirantes, ao fazer japa, suprime os seus pensamentos negativos. Isto não é benéfico. Se suprimires esses pensamentos, eles voltam novamente para as profundezas da mente subconsciente, onde se escondem, mas continuam a criar obstáculos. Essas impressões subconscientes muitas vezes causam introversão. São suficientemente fortes para gerar confusão e estragar toda a tua vida. Durante o sadhana alguns aspirantes tornam-se magros e finos, ou ficam com prisão de ventre, às vezes podem até ter acessos de raiva e loucura, tudo isto é o resultado de pensamentos reprimidos. Se não evacuares o intestino por muitos dias, o sistema vai ficar fraco e susceptível a muitas doenças. Da mesma forma, se não deixares que tuas tensões se libertem, terás muitos problemas mentais. Enquanto o elefante é forte e indomável, tens que o compreender e observar com muito cuidado, caso contrário, ele acaba contigo. Da mesma forma, enquanto a mente não estiver sob o teu controlo, tens que desenvolver com ela uma relação de amizade. Quando te tornares mestre da tua mente, pode tratá-la como quiseres, mas definitivamente isso não é possível nos estágios iniciais. Então, ao fazer antar mouna e japa, deves deixar a mente totalmente livre e testemunhar os seus movimentos. Assim, pouco a pouco, vais ser capaz de compreender a mente. (continua…)