Ataque dos macacos em Tryambakeshwar

//Ataque dos macacos em Tryambakeshwar

Ataque dos macacos em Tryambakeshwar

Nas viagens que fiz à Índia, perdi sempre algumas coisas e ganhei outras, considero mais importante o que perdi do que o que ganhei, pois nessa terra já me libertei de muita ‘bagagem’; na minha primeira viagem em 2007/2008 perdi, por exemplo, o meu passaporte – perda que para mim simboliza uma mudança fundamental no meu sentido de identidade, perdi várias ideias que tinha sobre o yoga e fiquei sem dúvida mais leve, e também ganhei algumas coisas, entre as quais umas histórias curiosas. Nestas viagens houve sempre alguma transformação importante que preferi guardar para mim, por isso as histórias que vivi deram sempre jeito para ter resposta à pergunta que muitas vezes ouvi: ‘Então como é que foi essa viagem? O que é que aconteceu por lá?’, para evitar a resposta silenciosa que melhor descreveria o que aconteceu de mais significativo, contei muitas vezes a história do ataque de macacos que me surpreenderam em Tryambakeshwar.

Tryambakeshwar é uma vila no estado de Maharashtra, considerado um dos principais sítios de peregrinação para os devotos de Shiva, onde se encontra um dos 12 jyotir linga, é um sítio muito importante no percurso do meu guru, por isso decidi passar o Mahashivaratri de 2008 neste espaço inspirador.

A paisagem desta região com os seus planaltos fez-me lembrar alguns desenhos de Morris na banda desenhada Lucky Luke. Num destes planaltos que circundam Tryambakeshwar, nasce o rio Godavari, o segundo maior rio da Índia depois do Ganges. Depois de ter subido à montanha para conhecer a nascente e um templo que está no topo comecei a descer enquanto o sol se elevava no céu derramando sobre tudo um calor esmagador. Nestas condições, uma gruta que já tinha espreitado na subida tornou-se especialmente atraente com a frescura da sombra onde me abriguei para fazer uma prática de pranayama enquanto as horas mais quentes passavam (na galeria de viagens, temos uma foto desta gruta). Estava eu envolvido com o nadi shodhana pranayama, uma técnica de purificação dos fluxos energéticos através da respiração, e confesso, especialmente envolvido na ideia romântica de estar a meditar numa gruta na Índia distante… ‘cá estou eu mergulhado no yoga! isto é tão bom, que enquanto aqui estiver venho a esta gruta meditar todos os dias!’ … Esta ideia não demorou a abandonar-me, porque passado algum tempo, entraram na gruta alguns macacos. A gruta era pequena (só cabia sentado) e os macacos também, pequenos demais para me assustar, por isso continuei a praticar. Os macacos queriam o meu saco onde adivinhavam saborosas frutas, mas como lá tinha os meus documentos não podia dar-lhes o saco que estava ao meu lado. Passado algum tempo, presenti uma mudança palpável no ambiente da gruta, desbloqueei a narina e olhei para a única entrada da gruta, onde estava uma macaca grávida, grande demais para uma prática tranquila. Quando olhei para ela, percebi que estava à espera que eu reconhecesse não só a sua presença, mas o seu domínio sobre a situação. Este domínio foi evidente quando ela me contornou a uma distância menor que um braço e se sentou à minha frente dizendo com o olhar: ‘sai daqui enquanto podes’. Decidi obedecer à voz do seu olhar e quando ia pegar no meu saco para sair ela mostrou-me que o saco já não era meu. Avançou para mim com a boca aberta, e durante uns segundos os seus dentes bem maiores que os meus ocuparam o palmo à frente da minha cara. Claro que o saco não era meu.. não sei como consegui gatinhar tão rápido, mas num instante estava fora da gruta a olhar para os macacos a dividir o espólio como podiam, ainda vi o meu passaporte a voar mas não foi desta que o perdi (outra história para depois). Quando estava em condições de recuperar o que eles não levaram, voltei a entrar na gruta para agarrar nas minhas coisinhas e sair dali rapidamente enquanto o órgão mais evidente no meu corpo era sem dúvida o coração que batia com mais força do que os pés no chão.

Voltei a praticar noutras grutas na Índia, particularmente em Arunachala, nas míticas grutas onde Ramana Maharshi viveu em silêncio por muitos anos, mas desta vez, enquanto descia a montanha achei mesmo que era a última vez que entrava numa gruta. Enquanto descia estava assustado, mas convencido que a macacada tinha terminado. Quando me deparo com uma passagem obrigatória barrada por macacos, uma portagem mais inevitável que as da auto-estrada. Lentamente mas com o coração na boca avancei até ser detido por um espécime de pequena dimensão mas enorme atrevimento. Enquanto um macaco mais velho e maior, com cicatrizes na cara como quem usa medalhas de bravura ao peito, controlava a situação. O macaco pequeno revistou-me os bolsos, o saco, e quando viu que já não havia nada mastigável, mandou-me seguir tocando-me com a pata nas costas. Enquanto saía dali o medo foi acompanhado pelo espanto perante a eficácia da organização do gang de símios. Ainda demorei algumas viagens até me reconciliar com estes parentes distantes, e hoje tenho um enorme respeito por Hanuman.

By | 2017-06-08T20:41:29+00:00 3 Abril, 2016|Categories: Viagens|Tags: , , , |

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