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Yoga2017-06-08T20:41:28+00:00

 

O que é o Yoga

A palavra yoga é normalmente traduzida como ‘união‘, sendo este termo uma referência à realização da identidade entre a consciência individual (jivatman) e a consciência cósmica (paramatman). Um copo de água retirado do oceano tem na verdade a mesma essência que todo o oceano, a água. Mas o que quererá isto dizer?
Para perceber o que é o yoga devemos começar por entender que existem dois aspectos diferentes desta filosofia: o yoga como processo, e o yoga como estado de consciência.

Relativamente ao yoga como estado da consciência, não há muito para dizer, pois é na verdade indefinível, no entanto as palavras que se seguem podem servir como um apontador para essa realidade. Apesar de ser um estado além do corpo e da mente, estes passam a ser um reflexo da união que os transcende, quando esta é realizada pelo yogi. Swami Sivananda Saraswati explica este reflexo do yoga na vida como uma ‘integração e harmonia entre pensamento, palavra e acção, ou integração entre cabeça, coração e mão’. Ou como diz o poeta Ricardo Reis ‘põe quanto és no mínimo que fazes’. Um estado de integração plena em que todo o nosso ser flui sem qualquer contradição interna, pois cada movimento ou expressão do ser, parte do mesmo fundo imóvel e inexpressável.

O yoga como processo é uma filosofia ancestral, essencialmente prática, que para ser conhecida tem de ser experienciada. O conhecimento em segunda mão, emprestado por palavras lidas ou ouvidas seja de quem for, por mais ilustres que sejam os seus conceitos, não é yoga. A experiência própria é o único suporte sólido do verdadeiro yoga. Para conhecer o yoga, é necessário praticar yoga, e independentemente do yoga que praticarmos são necessários estes três passos:
a identificação do condicionamento que nos limita, da circunstância da qual nos queremos libertar;
a identificação do ensinamento ou método adequado para nos libertar dessa condição;
a aplicação prática desse método ou ensinamento.

A relação que estabelecemos com este processo, pode ser dividida em quatro fases cujas fronteiras não são absolutamente estanques mas suficientes para podermos distinguir uma mudança na forma como vivemos o yoga, segundo Swami Niranjanananda Saraswati: o yoga como prática, o yoga como sadhana, o yoga como forma de vida, o yoga como vida.

A nossa relação com o yoga como prática é quando frequentamos um espaço qualquer, seja um centro de yoga, uma academia, um ginásio, ou mesmo um ashram ou templo, e vivenciamos o yoga como algo esporádico e aleatório (mesmo que seja todos os dias). Dirigimo-nos ao yoga por alguma razão particular, seja a dor de costas, a tensão física, mental ou emocional, ou simplesmente para procurar bem-estar. Normalmente, mesmo que haja alguma curiosidade, não estamos muito interessados na verdadeira proposta desta filosofia. E como a motivação pessoal se sobrepõe ao valor que atribuímos à proposta do yoga, assim que este nos ajuda a resolver o problema pelo qual começámos a praticar, interrompemos a prática, até que o problema regresse, seja o mesmo ou outro diferente. A grande maioria dos praticantes nunca chega a conhecer outra relação com o yoga, mesmo alguns que praticam toda a vida.

Passamos a ter uma relação com o yoga como sadhana, quando há um entendimento claro sobre o que o yoga propõe, e uma disposição para o pôr em prática de forma sistemática, adequada às nossas necessidades e capacidades, com regularidade, sinceridade e paciência. Vivemos o yoga como sadhana quando começamos a aceitar e aplicar o que os vários yogas nos revelam: quando exploramos o jnana yoga para ver as coisas como são e não como parecem ser; quando desenvolvemos o bhakti yoga de modo a poder canalizar o imenso potencial das emoções para algo que nos transcende; quando aplicamos os princípios do karma yoga, dedicando toda a atenção em cada acção, pela a acção em si mesma e não pelo que podemos ganhar ou perder; quando praticamos raja yoga para poder estabilizar o corpo, a respiração, e a mente, partindo da conduta adequada (yamas e nyamas) até ao desenvolvimento da concentração (dharana ), que permite outros estados de consciência; quando praticamos asana (asana), pranayama (pranayama) e os shatkarma do hatha yoga para purificar e equilibrar o corpo nas suas várias dimensões; quando praticamos kundalini yoga, mantra yoga (mantra), kriya yoga, laya yoga, ou outro yoga qualquer, com plena consciência do propósito, da necessidade e da validade de cada método. É importante entender o sadhana como um meio e não um fim em si mesmo, que não nos torna rígidos nem fundamentalistas, mas que nos faz crescer e evoluir, com a flexibilidade da água e a força de uma montanha. Tradicionalmente o sadhana está intimamente ligado ao conceito de abhyasa: a prática continuada ininterruptamente, por um longo tempo, com a convicção enriquecida por experiência própria. Outro princípio essencial do sadhana do yoga e do tantra é adhikari, o grau de competência, a natureza de cada sadhaka, que nos mostra que na verdade não existem sadhanas básicos, intermédios ou avançados, mas sim adequados ou desadequados ao ponto em que nos encontramos. Tal como quando consultamos um mapa, imaginamos muitos caminhos onde provavelmente preferíamos estar, no entanto se usarmos o mapa escolhendo essas referências em vez do ponto em que nos encontramos, o mais certo é não irmos dar a lado nenhum. Por isso são tão importantes as indicações do Guru e de uma verdadeira tradição.

O yoga torna-se uma forma de vida quando o sadhana começa a dar os seus frutos, quando se estabelece naturalmente e sem esforço um sentido de auto-disciplina e auto-observação, quando há uma influência do yoga em todas as esferas da existência quotidiana. O que não quer dizer que temos de nos tornar professores de yoga, ou ir viver para um ashram, ou para uma gruta nos Himalayas, existem professores de yoga que nunca chegaram a conhecer o yoga como sadhana e para os quais o yoga não é mais que profissão, e muitos renunciantes e ascetas que não fizeram mais do que fugir às dificuldades do mundo e da vida em sociedade. Por outro lado há seres cujas profissões não têm nada a ver com o yoga, e superficialmente pode parecer que nada sabem sobre yoga, mas na verdade tudo o que fazem ou não fazem é a expressão de um sadhana interno.

O yoga é vida e a vida é yoga, naqueles que irradiam, discretamente ou às vezes sem discrição por inevitabilidade, a harmonia, a sabedoria e o amor de um estado de integração absoluta em que não há qualquer diferença ou separação entre o interno e o externo, o eu e o outro. O yoga como vida é o reflexo do yoga como estado de consciência na existência de um ser particular, apesar do yoga como estado de consciência estar além da vida e da morte.

Para compreender estas quatro formas diferentes e progressivas de viver o yoga é extremamente importante entender todo este processo no sentido da subtracção ou eliminação, e não no sentido da adição ou aquisição. Não devemos praticar yoga como quem veste uma farda que acha mais limpa que as outras, mas sim como alguém que se liberta de uma máscara para poder contemplar o seu verdadeiro rosto, para poder conhecer a sua verdadeira natureza.
Uma vez, perguntaram a um famoso escultor: ‘como fez esta peça tão bonita?’, ao que ele respondeu: ‘só limpei o que estava à volta’.
O yoga revela o melhor de cada praticante, da mesma maneira que o escultor expõe a forma nos seus trabalhos.
A beleza da obra já se encontra no interior da pedra – o escultor só remove o material que a esconde. Do mesmo modo, o ser – a consciência – a felicidade absoluta, existe sempre, em todos nós – o yoga só remove o que está a mais, para que se revele o essencial.

No fundo, trata-se de um movimento de libertação, e do mesmo modo com que ao caminhar usamos os dois pés de forma alternada e complementar, mas avançando continuamente no mesmo sentido, também este movimento de libertação acontece devido a duas capacidades complementares e indispensáveis para seguir em frente: viveka, o discernimento da diferença que existe entre o falso e o verdadeiro, o irreal e o real, o temporário e o intemporal; e vairagya, o natural abandono do falso quando é visto como falso.